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A verdade, o que realmente importa mora dentro de mim, longe do binóculo alheio. O resto é cena, ego, poeira.

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“Não, você não é um dano psicológico, só tem medo e isso que te impede de seguir em frente. Porra, eu to aqui, disposto a te dar um relacionamento completamente seguro e tu só consegue pensar em como não vai dar certo cara, porque é complicada demais, enjoada demais e tudo ao extremo demais pra ficar com alguém. Mas você não é Mia, tu só faz questão de ser porque é mais fácil ter tudo ao seu modo e do seu jeito. A questão é isso aqui já deixou de ser loucura a muito tempo, só você que não consegue enxergar. A única coisa que eu quero é… Deixa pra lá. Eu vou dormir em casa hoje.”
Ai você bateu a porta pela quarta vez no mês e segunda na semana. Sempre falando sem parar se fosse fácil pra mim entender tudo o que estava dizendo. E era. Só não fazia sentido. Eu era feliz com as coisas assim. E você também. tem iogurte de ameixa pra mim na sua geladeira e eu faço lasanha pra você aos sábados. A gente faz sexo no chuveiro antes de ir pro trabalho e quando estamos cansados do terraço da sua casa, a gente se enrola no sofá do meu apartamento. É quase uma rotina, exceto que pelo meio da semana tu sempre da um jeito de me tirar do sério. Como me ligar as três tarde dizendo que que aconteceu um acidente, quando na verdade só tinha planejado uma viagem de fim de semana pra nós dois. Em plena quarta-feira. Então porque tu quer rotular essa nossa… Qualquer que fosse denominada esse tipo de relação? As coisas estão boas desse jeito. Simples. Fáceis de lidar. A gente esquecia dos problemas fazendo sexo e agora você fazia questão de lembra-los depois e sinceramente, eu só queria mesmo que não tivesse começado com isso há 10 meses. Eu sabia que a conversa seria difícil aquele dia, confesso. Afinal, você supostamente tinha uma linda namorada e a gente não se falava a meses. E ao invés de marcamos um bom almoço para colocar as coisas em dia como um casal de amigos normal, você apareceu no meu apartamento em plena madrugada de sábado só pra me lembrar porque eu sentia tanto a sua falta. E foi bom matar a saudade, ter certeza depois de meses encontrando outras bocas sujas por ai o meu corpo sempre seria seu. Eu só nunca imaginei que me perguntaria aquilo. Pra mim já estava de bom tamanho saber que já não existia nenhuma Julia há algum tempo, que tu sentira minha falta tanto quando eu senti a sua e que nada nunca se comparou aos meus ovos mexidos pela manhã. Mas você tinha que me convidar pra morar contigo. Me fazer quase colocar pra fora toda a vitamina que eu tinha tomado simplesmente porque achou que era certo nós simplesmente ficarmos juntos depois de sete meses sem lembrar da existência um do outro.
E tá, essa coisa toda de você tentar ser romântico era até bonitinho, mas não combinava com a gente. Mesmo que eu tenha pensado em uma relação diferente pra nós dois no tempo que tu sumiu, essas ideias eram feitas na minha utopia, de um jeito que eu não podia querer concordar com você. Eu tenho pavor disso tudo. De me deixar envolver ou sequer me permitir sentir alguma coisa a mais do que a compulsão que eu tenho pelo seu corpo. E eu não tolero pensar em dizer que você é meu. Porque é errado. Você não faz ideia Daniel, do quanto eu sofri quando não te tinha mais aqui. Eu deixei você ser mais do que um melhor amigo, e acabei na merda, ou se você preferir, quebrada por causa disso. Porque era insuportável imaginar sua boca tocando outra, e suas mãos em uma cintura 36 diferente da minha. Não tinha me dado conta, que durante aquele mais de um ano que nós ficamos “juntos” eu fiquei acomodada, chegando quase acreditar que seriamos assim pra sempre. Porque era tudo o que eu mais queria na minha vida. Ter você, e poder deixar sair deliciosamente pela minha boca, que esse corpo moreno e olhos castanhos são meus. Todos os dias. Eu não seria mais a garota com inveja da loira de farmácia, porque você tinha escolhido a morena de 1,64. Sair de mãos dadas na rua já não seria tão errado, porque elas seriam minhas, como eu sempre quis que fossem. Acho que nunca admiti pra mim mesma, porque, Daniel, chegava até ser absurdo, o que durante todo esse tempo, eu senti por você. Eu nunca quis outro quando estava do seu lado, e mesmo quando estava com outro, eu só pensava em você. E tudo foi sempre demais e exagerado quando se tratava da gente. Começava quando te via chegar em casa, sempre com uma receita nova pra experimentar. O meu coração saltava parecendo uma garota de 17 anos, só que eu tinha 27. Então, ao invés de tudo me invadir com uma força avassaladora, foi aos poucos, e rápido, e aos poucos de novo, que no fim disso tudo, eu já não sabia o que sentia, nem quem eu era. Só que você tava apaixonado por essa outra garota. E toda essa confusão foi causada por você, a única pessoa que já fez eu ficar tão segura e com tanto medo ao mesmo tempo. Daniel, se bobear, você foi o único cara que.. Ah caramba. Você tá certo, droga.

Mais que causal, parte 4, Danielle Quartezani
“Mia era a personificação da complicação. Esse sempre foi o melhor jeito de defini-la. Se eu soubesse que aquela íris castanha-esverdeada fosse me deixar tão louco eu nunca teria proposto sexo casual com ela. Confia em mim. Eu costumo fugir dessas encrencas, mesmo sabendo que elas sempre vão dar um jeito de me encontrar. A ideia toda partiu de pressuposto que se apaixonar pela minha melhor amiga estaria fora de cogitação. O sexo era bom, confesso. Não, era estupendo, isso. – não sei o que significa, mas ela disse a palavra alguma vez pra qualificar sei lá-o-que que era bom demais. - O tesão me afrontava só de ouvir a voz dela no meio da cozinha perguntando o que eu queria para o jantar. Mas, aquele tipo de amor que deixa as coisas meio fora do ar, era impossível. Vamos considerar que eu tenha um tipo de “instinto”, que um segundo antes de tudo fugir do meu controle, aciona um alarme me fazendo pular fora do barco e entrar em outro navio. Tá me entendendo? Nunca fui muito bom com metáforas. Só nunca me apaixonei por ninguém. A única vez em que as coisas quase chegaram a tal ponto – insano – a garota partiu para um lugar da Europa uma semana depois de sair da minha boca aquelas três palavrinhas, com sete letras e três monossilábicos arrogantemente infantis. Depois disso, eu nunca tive coragem pra deixar acontecer de novo. Mas ninguém esperava por Mia. A garota é um tipo de furacão ambulante embalado em punhos pequenos, pernas grossas e cintura bem marcada. Que assiste seriado policial querendo descobrir o crime e o culpado antes mesmo dos créditos iniciais terminarem de passar. E é neurótica também. Fala rápido demais, faz tudo ao extremo demais e sempre acha que esta no lugar errado, fazendo esse tipo de “drama a qualquer custo” sem nunca acreditar quando digo que ela é gostosa. Extremamente gostosa quando morde os lábios carnudos e passa as mãos no meu peitoral querendo sexo. Ela sabe o que quero na cama, ela sabe o que eu quero fora dela. Eu tô sem saco pra ir pra balada, mas tenho pra ela. Mia me entende. Isso nunca foi qualidade de ninguém. Foi ai que me envolvi com Julia.
Eu não perderia minha melhor amiga só por causa dessa coisinha estupida que eu sentia quando olhava pra ela, ou quando via outro cara passando olho em suas pernas. Não. Eu só não previ o que aconteceria dali pra frente. Quando Mia chamava a minha nova namorada de tarântula – o apelido surgiu depois de um documentário da Discovery Channel – queria dizer que ela estava sentindo também. E, enquanto eu tentava fugir em silêncio, Mia fez isso tudo aos prantos e abertamente. Ignorou minhas ligações, me mandou à puta que pariu, justificando que não queria mais nada comigo porque tinha que focar na sua promoção. Ela tinha que focar em qualquer coisa menos em mim. Não que eu fosse desistir tão fácil. Passei três meses ligando, indo ao seu apartamento e aparecendo na porta da sua empresa. Só até perceber que ela estava feliz.
Você fica atônito quando descobre que quem tu ama pode viver se você. É meio psicótico na verdade. A gente realmente acredita que a pessoa é sua até ver com ela com outra, como se a tivesse comprado ou algo assim. Tu fica puto com a garota, com o cara e consigo mesmo. Acho que principalmente consigo. A sua propriedade - que supostamente tá com seu nome tatuado na testa – foi invadida porque você foi burro o suficiente pra desocupar a casa, ou não foi o homem que deveria ter sido para assumir que aquele lugar era teu. E convenhamos, tem coisa mais autodestrutiva do que se culpar pela perda de alguém? Pior que tem. Descobrir que aquela garota é a sua garota. Tá me entendendo? Por mais que eu tivesse tentado tirar toda essa estupidez da minha cabeça, não funcionou. Eu a amava. A tal ponto de pensar em fazer aquele tipo de loucura que ela adorava ver em filmes de comedias românticas. Mas só pensar, por meses. Coragem mesmo, só me apareceu quando a vi no aniversario do estagiário da minha empresa, usando um vestido azul que realçavam os seus seios com a nuca exposta. Já falei que nunca consegui resistir a nuca da Mia? Muito menos ao olhar arregalado, surpreso e amedrontado que ela me deu a se dar conta que eu também estava ali. Por um segundo, tudo pareceu dar certo. Até a Julia resolver cumprimentar o seu ex namorado. No caso, eu. Mia desapareceu como uma boa menina mimada que tem medo de enfrentar as coisas de frente. E eu, no ápice do Daniel apaixonado, apareci na porta do seu apartamento as quatro da madrugada dizendo que queria ela na minha cama, todos os dias. Impulso mal pensado? Pode até ser. Mas eu não sei mais o que se pode ser proposto à garota que, ao olhar para as suas unhas, corresponde ao mesmo que imagina-las arranhando as suas costas.
Mas ela não quis. É claro que não. Por que Mia era programada para se complicar e não aceitar nada que pudesse lhe fazer feliz com desculpa de ser “psicologicamente quebrada” ou “um dano, para qualquer que chegasse perto”. Eu não sei quanto tempo mais uma garota pode continuar sendo desse jeito, mas eu deixei que ela fosse, porque era Mia.
Afinal, quantas pessoas a gente encontra na vida pra dizer “Olha, eu desistiria de qualquer pessoa no mundo, desde que ela não fosse você. Simplesmente porque eu não consigo, porque não quero, porque eu já não sou mais capaz.”? Em um cara como eu, apenas uma garota. Eu não deixei que as crises estupidas dela de “você não vai me aguentar por muito tempo” me abalassem, eu não fui embora nem por um segundo.
Mas uma hora cansa, cara. Cansa de discutir o mesmo assunto todos os dias, como se convencer alguém do que ela mesma sente fosse trabalho seu. E não é. Quando eu cheguei em casa naquela noite sem nem dar um beijo de boa noite nela, eu estava acabado. Queria mandar tudo á merda e conseguir pensar em fazer sexo com outra garota, como eu não pensava a mais de um ano. Mas eu não conseguia, é claro. Porque tudo o que tinha na minha cabeça era Mia e suas pernas grossas sobre aquele sofá, que eu queria mas não podia mais tocar por pura exaustão de continuar em uma relação que não vai a lugar algum. Eu não queria mais as coisas desse jeito. Pelo menos foi o que eu achei até a única pessoa que tem a chave da minha casa adentrar pela porta com os cabelos castanhos encharcados de água e dizer:
— Eu aceito. Eu aceito morar contigo. Mas não abro mão do meu apartamento, Daniel, porque se eu pensar por mais um segundo, acabo correndo daqui e perdendo você. E eu não quero perder você. Nem vou. Mas ficar sem meu apartamento significa ficar sem a gente, e nada do que é nosso pode ser deixado para trás. Inclusive a mesa da cozinha do meu apartamento. Não, não chega perto. Eu tô falando, Daniel, que droga não faz assim, Daniel, para, eu…
— Tá, eu já entendi. Seu apartamento fica. Mais alguma coisa Mia? Porque, pelo amor de Deus, eu tô louco pra terminar de arrancar sua roupa no balcão da nossa cozinha.”

Mais que Casual, parte 5. - Danielle Quartezani 

 

“Você disse que queria sexo comigo, mas que sentia falta dos olhos verdes dela. Mesmo depois de fazer com que eu me perdesse dentro de você. Isso era completamente humilhante, mas não era pior do que a minha vontade de continuar ali quando segurou minha coxa entre suas mãos e mordiscou de leve o meu pescoço. Tudo o que eu queria, era poder ter aquilo pra sempre. Talvez isso seja piegas demais para o seu vocabulário escasso, mas era assim que eu me sentia: com uma eternidade toda pela frente diante do seu corpo pressionado no meu enquanto me elevava a uma montanha russa tão alta, que eu nem sequer tinha medo do precipício em minha frente. Ou da queda que iria levar quando você parasse de apertas meus seios com uma força tão prazerosa e voltar para ela. Ela, ela, ela. A tal garota de nome pobre, cintura trinta e seis, e bochechas lindamente rechonchudas que ficavam vermelhas com tudo o que você falava. Ela tinha a inocência doce que tu tirou de mim a anos atrás. Mas acho que você não se lembra de mim desse jeito. Com olhar doce, sorriso fácil, carinha meio boba, e ingenuidade que aflorava a pele. Agora eu sou o objeto do final de semana. Porque tu tem nojo de putas e eu sou o sexo mais fácil que você pode encontrar dentro de um carro ou em um motel barato. Basta uma dose de tequila, um jantar no meu restaurante favorito, ou encontro casual nos meus lugares de sempre. Você diz uma coisa boba e não demora 10 minutos para eu cair no seu papo de novo. Porque vou ser sempre a garota suburbana apaixonada pelo carinha bem encaminhado da cidade. Posso dizer? Odeio como você faz eu me sentir. É como se a garota madura e decidida prestes a se formar em estudos literários desaparecesse e desse lugar a essa estupida que não consegue encontrar qualquer sentido quando seus braços envolvem a minha cintura. Tudo o que queria, era voltar no tempo. E se eu não tivesse aceitado a bolsa de estudos na Alemanha? E se eu tivesse largado a faculdade e conhecido o mundo com você? Eu não me canso de sentir saudades do que poderíamos ter feito. De certo, acho que ainda sou a favorita da sua mãe. De certo ela diria pra mim que eu não deveria estar aqui te vendo vestir uma camisa social sem nem sequer me dar um beijo de despedida porque a sua garota ligou. E eu desejei em um milhão de anos que aquele olhar e sorriso meio torto voltasse a ser meu. Mas acho que entendo, os meus olhos castanhos não tem o tom doce e esverdeado dos dela.”

— Daniel e Mia, sobre eu e você - Danielle Quartezani  
“não caibo em mim
sou pequena,
mas em você me torno vasta
e preencho todo espaço.”

nevou.   

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